O “pensamento” do Papa Francisco

Publicado em 24/05/2018 | Categoria: Papa Francisco |


 

 

A “simplicidade” com que se apresenta o Papa Francisco é um ponto de chegada que pressupõe a complexidade de um pensamento profundo e original. O filósofo Massimo Borghesi reconstrói as suas raízes, iluminando uma personalidade em que se conjugam experiência pastoral, experiência mística e intelectual. Ele foi entrevistado por Paola Zampieri da Sala de Imprensa da Faculdade Teológica de Triveneto.

A entrevista é de Paola Zampieri, publicada por Settimana News, 23-05-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

No vasto panorama dos livros publicados sobre o Papa Francisco, um em particular se destaca pela originalidade do aspecto da abordagem: a gênese e o desenvolvimento de seu pensamento. O livro é intitulado Jorge Mario Bergoglio. Una biografia intelettuale. Dialettica e mistica (Jaca Book 2017; tradução brasileira: Jorge Mario Bergoglio. Uma biografia intelectual. Petrópolis, Vozes, 2018) e é do autor Massimo Borghesi, professor de Filosofia Moral na Universidade de Perugia, que em 29 de maio estará em Pádua, na Faculdade Teológica do Triveneto, para conversar com o teólogo Roberto Repole sobre o tema Jorge Mario Bergoglio – Papa Francisco: a formação, o pensamento, a obra. Biografia intelectual e sonho de uma igreja evangélica.

Nós o entrevistamos e ele explicou como a simplicitas ( “simplicidade”), com que se apresenta o papa Bergoglio seja um ponto de chegada que pressupõe a complexidade de um pensamento profundo e original, em uma personalidade em que se conjugam experiência pastoral, experiência mística e intelectual.

Eis a entrevista.

Professor Borghesi, há um preconceito, especialmente no ambiente eclesial e acadêmico, que paira sobre a imagem de Bergoglio: que seu pensamento é “simples” demais, muito pouco fundamentado sobre um sistema teológico-filosófico.

Trata-se de um preconceito particularmente forte entre os detratores do papa, que encontrou em seus ombros a difícil herança de Bento XVI, um dos grandes teólogos do século XX. Pelo fato de vir depois de um pontificado fortemente marcado no plano intelectual, o estilo pastoral de Bergoglio pareceu a muitos “simples” demais, não adequado aos grandes desafios do mundo metropolitano, secularizado. Ao papa que veio do fim do mundo é censurado, na Europa e nos Estados Unidos, de não ser “ocidental”, europeu, culturalmente preparado.

Existe, no entanto, um pensamento original do ponto de vista teológico-filosófico? Qual seria?

Pessoalmente, antes de escrever a minha Biografia intelectual de Bergoglio, eu tinha lido alguns textos dele que tinham me impressionado. Entre estes, alguns dos discursos da segunda metade dos anos 1970, quando ele era jovem Provincial dos jesuítas argentinos. Eu tinha ficado com uma forte impressão. O que mais tinha chamado a atenção era o “pensamento” que sustentava as suas argumentações. Bergoglio dirigia-se a seus coirmãos que estavam sofrendo a laceração de uma situação dramática.

A Argentina na época era governada pela junta militar que garantia, com mãos cobertas de sangue, a repressão da frente revolucionária dos Montoneros. Diante desse conflito, a Igreja estava profundamente dividida entre os partidários do governo e aqueles que se aliavam com a revolução. Para Bergoglio aquela laceração da sociedade era um impasse inclusive para a Igreja, que se mostrava incapaz de unir a população.

Na Argentina dos anos 1970, Bergoglio tinha um ideal?

Seu ideal era aquele do catolicismo como a coincidentia appositorum, como superação das oposições que, radicalizadas, se transformam em contradições irreconciliáveis. Esse ideal foi expresso por Bergoglio através de uma filosofia, uma concepção segundo a qual a lei que rege a unidade da Igreja, bem como aquela social e política, é uma lei baseada em uma dialética “polar”, em um pensamento “agônico” que mantém unidos os opostos sem anulá-los e reduzi-los à força ao Uno. Multiplicidade e unidade constituíram os dois polos de uma tensão ineliminável. Uma tensão cuja solução era confiada, a cada momento, ao poder do Mistério divino que age na história.

Essa perspectiva, que aflorava entre as linhas dos discursos do jovem Bergoglio, impressionou-me muito. Associada com os pares de polos que o Papa recordava na Evangelii gaudium, delineava uma verdadeira “filosofia”, um pensamento original. Tendo estudado por um longo tempo a dialética de Hegel e, acima de tudo, a concepção de polaridade em Romano Guardini, essa perspectiva me interessou imediatamente. Era evidente que Bergoglio tinha uma concepção original, um ponto de vista teológico-filosófico que, singularmente, não chamou a atenção dos estudiosos.

Esta “filosofia” original da dialética polar que rege a unidade da Igreja, onde encontra as suas raízes?

A descoberta das “raízes” do pensamento de Bergoglio é, certamente, o dado mais interessante da minha pesquisa. Interessante inclusive para mim. Depois da leitura de seus textos, permanecia em mim, na verdade, a interrogação sobre a gênese de sua dialética polar. Tratava-se de uma leitura muito original da realidade que encontrava analogias no tomismo ilemórfico e dialético de Alberto Methol Ferré, o maior intelectual católico latino-americano da segunda metade do século XX.

Methol Ferré não estava, no entanto, na origem do pensamento de Bergoglio. Os dois cruzam seus caminhos somente no final dos anos 1970, durante a preparação da grande Conferência de Puebla da Igreja latino-americana.

De onde, então, ele deriva sua ideia de tensão polar como lei para o Ser?

Sobre esse ponto, nodal, os artigos e os livros não ofereciam nenhuma pista. É como se Bergoglio quisesse manter segredo sobre a fonte de seu pensamento. Sobre esse ponto é que as respostas que o Papa me enviou através de arquivos de áudio, revelaram-se fundamentais. A partir deles consegui entender como a origem de seu pensamento deva ser colocada nos anos de formação, no Colégio San Miguel, quando Bergoglio refletiu sobre a teologia de Santo Inácio, através do modelo da “Teologia do como se”, e, principalmente, através da leitura, determinante, do primeiro volume de La dialectique des “Exercices spirituels” de saint Ignace de Loyola de Gaston Fessard. A leitura “tensionante”, dialética, que Fessard dava a Santo Inácio está na origem da forma de pensar de Bergoglio. Para mim foi uma verdadeira descoberta. Gaston Fessard, jesuíta, é um dos mais brilhantes intelectuais franceses do século XX.

Além de Gaston Fessard, que autores contribuíram para a formação do pensamento de Bergoglio?

Depois, tem Henri de Lubac com a sua concepção da relação entre a Igreja e a sociedade expressa em Catholicisme. Les aspects sociaux du dogme. Fessard e de Lubac são os protagonistas da Escola de Lyon. Seguindo eles, Bergoglio é, de alguma forma, um discípulo dessa escola.

Ambos, Fessard e de Lubac, são defensores de uma concepção dialética, herdada de Adam Mohler, o grande fundador da Escola de Tübingen, para a qual a Igreja é a coincidentia oppositorum, unidade supranatural daquilo que, no plano do mundo, continua a ser irreconciliável. Essa é a mesma concepção de Bergoglio.

Além dos dois autores jesuítas agora mencionados, existe ainda um terceiro, ele também francês, que exerceu a sua influência sobre Bergoglio: Michel de Certeau. Ele também foi protagonista da cena intelectual, especialmente na década de 1970. O de Certeau que interessa a Bergoglio, no entanto, é aquele dos anos 1960, o estudioso da mística moderna, de Surin a Favre. O seu prefácio para o Memorial de Pierre Favre, o grande amigo de Santo Inácio, é um texto-chave na formação de Bergoglio. Seu ideal jesuítico da vida cristã, do contemplativo em ação, orienta-se em Pierre Favre.

Qual papel teve Romano Guardini, de quem este ano marca o 50º aniversário de morte?

Um papel-chave, certamente, apesar dos detratores de Francisco ter tentado de várias maneiras diminuir a sua importância. Guardini autor de referência para Joseph Ratzinger, não poderia sê-lo – assim eles pensam – para Bergoglio. Na verdade, sabemos que, em 1986, Bergoglio viajou para Frankfurt, na Alemanha, para uma tese de doutorado sobre Guardini. Como argumento escolheu não obras teológicas ou de caráter religioso, mas o único trabalho guardiniano integralmente filosófico: A oposição polar. Ensaio para uma filosofia do concreto vivente.

Trata-se uma decisão singular … Por que abordar o Guardini filósofo e não o teológico?

A resposta se torna compreensível à luz do meu estudo. A antropologia “polar” de Guardini aparece para Bergoglio como uma confirmação de sua visão dialética, antinômica, compreendida através de Fessard e de Lubac.

A autoridade de Guardini confere um valor especial para o modelo de pensamento que Bergoglio aplica no âmbito eclesial e político-social. Ao mesmo tempo, o modelo guardiniano amplia aquele bergogliano, permitindo inéditos aprofundamentos. Guardini torna-se, nos anos 1990, um autor de referência. Encontramo-lo repetidamente mencionado na Evangelii gaudium e em Laudato Si’.

Como se move Papa Francisco entre a adesão à grande tradição da Igreja, de um lado, e, pelo outro, a atenção às instâncias do pensamento contemporâneo?

O papa é absolutamente aderente à tradição da Igreja a tal ponto que, na Argentina, a frente progressista acusava o cardeal Bergoglio ser um “conservador”. Isso está bem documentado por Austen Ivereigh em sua bela biografia Tempo de misericórdia. Vida de Jorge Mario Bergoglio, publicado pela Mondadori. Na realidade Bergoglio certamente não é um conservador, no plano social. No plano eclesial, então, é um forte defensor do Concílio Vaticano II e isso sem ceder a qualquer modernismo. O seu papa de referência é Paulo VI.

O encontro de Bergoglio com a cultura contemporânea é um encontro na insígnia do Concílio e seus autores de referência que mencionamos anteriormente. Nesse campo, uma leitura original da relação entre o catolicismo e a modernidade é oferecida por Alberto Methol Ferré. Admirador de Maritain e de Gilson, Methol reunia em torno de suas revistas Víspera e Nexo o melhor da intelligentsia católica da América Latina. Bergoglio era seu amigo e assíduo leitor de suas revistas.

“Dialética e mística” – palavras que fazem parte do título de seu livro – de que modo caracterizam o pensamento e a obra de Bergoglio?

Bergoglio representa, na sua aparente simplicidade, uma figura complexa. Trata-se, em sua personalidade, de um complexio oppositorum. Este homem, que é criticado como pontífice por estar preocupado demais com o destino do mundo, é um “místico”.
A profundidade de seu pensamento e de sua alma se alimenta nos Exercícios de Santo Inácio, a vertente mística da Companhia de Jesus, o que une contemplação e ação. Como foi escrito por Antonio Spadaro: “A chave para o seu pensamento e ação deve ser procurada e encontrada justamente na tradição espiritual inaciana. A experiência latino-americana toma corpo dentro dessa espiritualidade e deve ser lida à sua luz para evitar o risco de interpretar Francisco caindo em estereótipos banais. Seu próprio ministério episcopal, o seu estilo de agir e pensar são moldadas pela visão inaciana, pela tensão antinômica de estar sempre e em qualquer ocasião in actione contemplativus“.

Pierre Favre, o companheiro de Inácio, viajante incansável na Europa dividida por guerras religiosas, o doce e suave pregador do Evangelho e da paz de Cristo é o seu modelo.

O que é um pensamento “místico”?

Um pensamento “místico” é um pensamento aberto, que não fecha as frestas. Como declarou Francisco: “A aura mística nunca define as bordas, não completa o pensamento. O jesuíta deve ser uma pessoa de pensamento incompleto, de pensamento aberto”. Por essa razão, a dialética antinômica de Bergoglio é, diversamente daquela de Hegel, uma “dialética aberta”. Porque as suas sínteses são sempre provisórias, devem ser apoiadas e reconstruídas a cada vez, e por ser a reconciliação obra de Deus, não primariamente do homem. Isso explica a sua crítica de uma igreja “autorreferencial”, fechada em sua “imanência”, marcada pela dupla tentação do pelagianismo e do gnosticismo. O cristão é “descentrado”, o ponto de equilíbrio entre os opostos está fora dele.

Qual é a lógica eclesial que rege o pontificado de Francisco, entre a atenção aos problemas sociais, o clima, o ambiente e a opção preferencial pelos pobres, a misericórdia e a verdade …?

complexio oppositorum, mencionada anteriormente, explica a ação e a perspectiva que orientam o pontificado. Contemplação e ação, evangelização e promoção humana, a primazia do kerygma e opção preferencial pelos pobres, verdade e misericórdia, são os polos de uma orientação antinômica, “católica”, que se recusa a separar os polos de uma tensão que devem permanecer na unidade . Esta é a lição de Santo Inácio, filtrada através da leitura dos Exercícios Espirituais oferecida por Fessard e Crumbach. A vida do cristão se move na tensão entre graça e liberdade, entre o infinitamente grande e do infinitamente pequeno.

Bergoglio, na esteira de Paulo VI, é o Papa do Evangelii nuntiandi e da Populorum Progressio. A Evangelii gaudium reúne, em uma síntese, esses dois polos da vida eclesial.

 

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos



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