VOCÊS SÃO DO CÉU!

Publicado em 10/07/2016 | Categoria: Notícias |


 

Dom-José-A-voz-do-Pastor        Amigos e irmãos todos,

Os últimos 500 anos testemunharam uma série de revoluções de tirar o fôlego. A Terra se tornou uma única esfera histórica e ecológica. A economia, as ciências e a Revolução Industrial deram à humanidade poderes sobre-humanos e energia quase infinitos. A ordem social, a política, a vida cotidiana e a psicologia humana foram totalmente transformadas.

Mas somos mais felizes? A riqueza que a humanidade acumulou nestes últimos cinco séculos se traduz em contentamento? Neil Armstrong, cuja pegada continua intacta na Lua sem vento, foi mais feliz que os coletores-caçadores anônimos que há 30 mil anos deixaram marcas de mãos nas cavernas pré-históricas? E se a resposta for “não”, qual terá sido, afinal, o sentido de desenvolver agricultura, cidades, escrita, moeda, impérios, ciência e indústria? Para que desenvolvemos o pensamento?

Os historiadores não fazem essas perguntas. Mas nós devemos fazer e, na verdade, serão essas as perguntas mais importantes que podemos fazer à história. Melhor ainda, a pergunta das perguntas não é se existe sentido nisso tudo, mas que sentido daremos a isso tudo?

Perto do grande acontecimento mundial das Olimpíadas, não cabe mais a pergunta se, afinal, há algum sentido em se fazer um evento desses numa hora dessas nesse nosso país. Mas que sentido podemos e devemos atribuir àquilo que será vivido, mesmo fora de hora e lugar?

O sentido nos inquieta. A falta de sentido nos inquieta ainda mais.

Viktor Frankl foi um terapeuta judeu que sobreviveu a seis campos de extermínio nazistas. Ele deixou claro que só se consegue sobreviver a situações críticas se for possível encontrar sentido para a existência, a ponto de fazer dela uma vida.

Gostaria de pensar nisso com vocês, hoje, irmãos e amigos.

Preocupa-me o fato de ser entre os jovens onde mais grassa o sentimento de falta de sentido. Muitos jovens plugados aos seus smartphones perderam o sentido de refúgio e acolhimento que havia nas tradições. São árvores desarraigadas. “Quando o ser humano encontra um sentido, ele está disposto até a sofrer se necessário. Ao contrário, porém, quando não conhece nenhum sentido da vida, ele não se importa com ela e a joga fora, mesmo que esteja bem de vida externamente” (FRANKL).

Fiquei assustado ao ver, em pesquisa recente, que 80% de alunos de faculdades norte-americanas responderam que viver não faz sentido. Ora, não é qualquer rapaz que frequenta faculdade nos EUA. Portanto, os que disseram “não” à pesquisa, são jovens bem-nascidos, no sentido de abastados. Se não há transcendência, não há mesmo nenhum porquê.

Onde está a causa desse desalento mundial?

Em parte, podemos localizar essa indiferença nas feridas da infância e no fato de as pessoas não conseguirem encontrar sentido por causa das expectativas exageradas, com relação à vida. Muito passado e muito futuro, mas nenhum presente. Elas cansaram de suas ilusões. E então recusam qualquer possibilidade maior de viver, magoadas por terem de sobreviver num mundo que lhes virou as costas. Sim, a vida pode ser danificada em muitos casos. Mas, Meu Deus, é preciso lutar para extrair significado até dos danos.

Uma coisa nada nos poderá roubar: a liberdade de reagir àquilo que nos for tirado. Podem nos tirar a saúde e até a vida. Mas sempre nos restará a liberdade de reagir, e essa liberdade consiste em dar um sentido a tudo o que nos acomete de fora e que parece privado de qualquer sentido.

“Você só pode viver daquilo que você transforma” (SAINT-EXUPÉRY).

As coisas não foram apenas colocadas dentro de você como num depósito. Cada um de nós foi dotado de uma espécie de processador capaz de registrar, transformar e dar sentido. Sem isso, corremos o risco de nos embrutecer por uma oferta excessiva de sentidos, dos quais nenhum consegue suprir as exigências do coração.

Na véspera do Primeiro Domingo do Advento de 2013, o Papa Francisco usou uma imagem tão própria dele que é impossível referir sem repetir. “Por favor, não assistam a vida da varanda de seus apartamentos! Intrometam-se – lá onde estiverem os desafios, lá onde pedirem sua ajuda para avançar a vida, o desenvolvimento, a luta pela dignidade do ser humano, a luta contra a pobreza, a luta pelos valores e todos os outros desafios que encontramos todos os dias”.

Cada vez que a gente se pergunta o que nos faz felizes, giramos a chave ao redor do nosso próprio bem-estar. O paradoxo é que cada vez que fazemos isso somos menos realizados. Já passou da hora de as pessoas perceberem que o mundo não gira ao redor de seus umbigos.

Jesus nos disse isso. Ele nos manda sair e ir ao encontro das ovelhas perdidas da casa de Israel. “Pelo caminho proclamem que está próximo o Reino dos Céus. Curem os enfermos, ressuscitem os mortos, limpem os leprosos, expulsem os demônios. O que receberam de graça, darão de graça!” (Mt 10,5-8).

Esse é o programa de Jesus para encontrar o sentido.

Observem as quatro chaves para abrir a porta do autoentendimento: enfermos, mortos, leprosos, possessos. Essas são as ovelhas perdidas, não apenas da casa de Israel, mas do mundo inteiro. Para elas é preciso que esteja bem claro o que, de certa forma, já está bem claro para nós: que o Reino do Céus chegou! Como parte da busca do nosso próprio sentido iremos ajudar as pessoas na sua procura de sentido e poderemos interpretar para elas os sinais do caminho, pois já nos colocamos nesse mesmo caminho.

Curar os doentes, ressuscitar os mortos indica que deve partir de nós algo que cura, algo que encoraje as pessoas a se reconciliarem com seu passado. Não podemos ressuscitar em sentido literal, mas a vida não é construída sobre o sentido literal. A vida é metáfora, uma grande metáfora. Podemos e devemos servir à vida, sim, para encontrar o sentido que ela esconde, sim, igual ao tesouro e à pérola das parábolas de Jesus.

Limpar os leprosos significa ajudar as pessoas a se aceitarem como são. Significa mais. Significa amparar o “sim” que cada um deu a si mesmo e ao projeto de Deus. Sim, eu sou como sou, porque essa é a primeira parte de um grande projeto sobre mim; a segunda parte é o que eu farei da primeira.

Expulsar os demônios é trazer clareza às situações. Demônio na Bíblia é tudo aquilo que turva as águas do pensamento. Quando pensamos e ensinamos a pensar de acordo com a realidade, nesse mesmo momento, estamos expulsando os demônios. Alguém já disse que os demônios são os espíritos do “mas”: o mesmo “mas” que jamais impele as pessoas a ousarem na busca do sentido. Quando clareamos o céu de chumbo dos pensamentos turvos, nós calamos a boca dos espíritos do “mas”, e eles ficam sem ter o que dizer. Na verdade, nunca tiveram! Toda vez que lhes perguntamos o que queriam, o que foi que responderam? Que não queriam nada, a não ser turvar a clareza do projeto de Deus.

Perceberam o caminho que Jesus indicou é um caminho claro?

O caminho para encontrar o sentido da vida começa por romper o ciclo narcisista. Começa quando paramos de girar em torno de nós mesmos e descobrimos outro centro gravitacional. Ele nos levará sempre adiante, adiante, adiante.

Pode ser que alguns de vocês recebam hóspedes nessas Olimpíadas. Então, mostrem a eles que vocês não são do Olimpo. Vocês são do Céu. E estará tudo mostrado, com toda clareza. A mesma de Jesus.

+ Dom José Francisco Rezende Dias
Arcebispo Metropolitano de Niterói

Fonte: Arquidiocese de Niterói



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