A Voz do pastor – Novembro/15

Publicado em 04/11/2015 | Categoria: Notícias |


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   Misericórdia, eu quero

 

 

 

Caros irmãos e irmãs,

Todos sabemos como começou a história humana. Começou com uma frase: “É verdade que Deus disse que vocês não podiam comer de nenhuma árvore do Jardim?” (Gn 3,1). Quando o autor sagrado disse que a serpente era o mais astuto dos animais dos campos, nem de longe lhe passava pela cabeça o tamanho da malevolência implícita na sua capacidade de sedução. Então é verdade mesmo que vocês não podem comer de nenhuma árvore do Jardim? Quem comete uma generalização dessa abrangência, ou não sabe o que está dizendo, ou sabe muito bem o que quer, onde quer chegar e quais das manipulações terá de lançar mão. A serpente sabia.

Coube à mulher desfazer o engano. Não, disse ela. Engano seu! Nós podemos comer de todas as árvores. Apenas do fruto da árvore que está no centro do Jardim é que não podemos sequer tocar. Do contrário, morreremos. A serpente também sabia.

Tanto, que já tinha uma carta na manga. A serpente sempre tem. Qual é, minha amiga, retrucou. Vocês não morrerão. Deus colocou esse interdito porque Ele sabe que no dia em que vocês comerem o fruto, seus olhos se abrirão, vocês serão como deuses, conhecerão todas as opções e toda a imensa pluralidade da vida. A serpente já sabia.

Claro que a mulher viu que a árvore era boa, delícia para os olhos, desejável. E o resto da história já conhecemos, inclusive, com suas consequências nefastas e a ingerência da morte sobre o reino dos vivos. É óbvio que aquilo não podia dar certo. E não deu. Num primeiro momento, saiu-se vitoriosa a serpente, festejante.

E o Criador amargou a dor de ver sua criatura revoltar-se com Ele.

Mas aí é que se encontra o maior engodo de quem se dispuser a ler o relato das origens nas letras sagradas, e entender a partir daí toda a História humana suja de sangue, da poeira da guerra, dos espinhos do solo e das pedras do caminho. A disposição da serpente não foi indispor o homem contra Deus. Não. Ao que tudo indica, a disposição da serpente foi indispor Deus contra o homem. A coisa é maior. A coisa é outra. O que importava à serpente era ver o Criador olhar sua criatura, a beleza daquilo que Ele havia desde os primeiros momentos considerado que era muito bom, e constatar a desordem que havia criado para, no fim, chegar tristemente à conclusão de que, afinal, Ele não era nem tão Criador nem tão Deus assim. O que interessava à serpente não era diminuir a criatura, era desbancar o Criador.

Pobres de nós, criaturas, se achamos que somos tão imponentes a ponto de precisar de uma serpente para derrubar nossa estátua de glória! Somos pequenos, quase nada. Deus é que é grande! Era a Ele que a serpente desejava atingir. Realmente, para atingir o status de serpente, à gloriosa capacidade de sedução da serpente, só mesmo se o homem virasse Deus. Mas aí, será mesmo que íamos querer? Afinal, ao que tudo indica, não seria tão bom negócio assim!

Por pouco, a serpente não leva a melhor.

“O Senhor Deus viu que a maldade do homem crescia na terra e que todo projeto do coração humano era mau.  Então, o Senhor Deus se arrependeu de ter feito o homem sobre a terra, e seu coração ficou magoado” (Gn 6, 5-6). E Ele resolveu exterminar o homem da face da terra, e não só o homem, mas tudo, animais, répteis, aves, tudo “porque me arrependo de os ter feito” (Gn 6,7). Por muito pouco, a serpente não leva a melhor. Acontece que no mesmo bloco, no último verso, o autor nos apresenta Noé, homem justo e íntegro, aquele que achou graça aos olhos de Deus (Gn 6,8). E a palavra Noé, no hebraico antigo, tem conotação de compaixão.

A compaixão inverte o jogo da serpente. A serpente ainda terá algumas palavras na História humana. Várias vezes, ainda, ela se pronunciará de maneira a distorcer os fatos e a capacidade de interpretá-los. Mas nunca mais teve a palavra final. A compaixão foi a palavra final. Desde que Noé, ou a compaixão, assumiu a direção da barca humana, a serpente se viu reduzida a tudo que ela é: somente uma sedutora barata de beira de estrada, e nada mais que isso. Muito mais do que ter criado o homem e o mundo, e ter achado que tudo era muito bom, foi, ao ter dado a palavra final à compaixão e à sua prima-irmã, a misericórdia, que o Criador realmente criou um projeto para a Criação. Agora, sim, havia a Criação e, mais que isso, havia um projeto para a Criação: a Misericórdia. Agora, sim, chegara o sétimo dia, e Deus poderia descansar da obra criada. Porque alguém viria e retomaria o projeto.

Jesus veio.

“Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. O mistério da fé cristã parece encontrar nestas palavras a sua síntese. Tal misericórdia tornou-se viva, visível e atingiu o seu clímax em Jesus e Nazaré. O Pai, ‘rico em misericórdia’ (Ef 2,4), depois de ter revelado o seu nome a Moisés como ‘Deus misericordioso e clemente, vagaroso na ira, cheio de bondade e fidelidade’ (Ex 34,6), não cessou de dar a conhecer, de vários modos e em muitos momentos da história, a sua natureza divina. Na ‘plenitude do tempo’ (Gl 4,4), quando tudo estava pronto segundo o seu plano de salvação, mandou o seu Filho, nascido da Virgem Maria, para nos revelar, de modo definitivo, o seu amor. Quem O vê, vê o Pai (Jo 14,9). Com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa, Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus” (Papa Francisco, Misericordiae Vultus).

No dia 13 de março, segundo aniversário da sua eleição ao Pontificado, o Papa Francisco anunciou o Jubileu da Misericórdia. “Decidi convocar um Jubileu Extraordinário que tenha o seu centro na Misericórdia de Deus. Será um Ano Santo da Misericórdia.” Não é de hoje que o Papa vem insistindo numa tecla que sustente a melodia da misericórdia. E a coisa vem é de longe! “É a misericórdia que eu quero e não os sacrifícios” (Os 6,6; Mt 9,13).

Neste Ano da Misericórdia, seremos todos filhos pródigos e pais do filho pródigo. Retornaremos à casa do Pai, mas estaremos prontos, de olhar preso à janela, à espera do irmão que irá retornar, atentos ao nosso próprio retorno, porque sempre estamos indo e voltando, num eterno retorno à Casa do Pai que não termina nunca, até que cheguemos, um dia, enfim, de verdade.

Vivemos nossa eterna procura.

Temos sido sempre homens que buscam, às vezes, nas estrelas e nos livros, às vezes, nos ensinamentos, aquilo que o próprio coração murmura em nós. Procuramos, sempre. Nem sempre, encontramos. Mas nossa história conhece a insensatez e a confusão, a loucura e o sonho, como acontece na vida de todos os homens que já não querem mais mentir a si mesmos. É isso. A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Vivemos em eterna procura.

Vivamos assim o Ano Santo da Misericórdia. Que ele seja o ano dos encontros e reencontros, e dos abraços que ficaram por ser dados. Depois de anos, talvez décadas, quem sabe tenha chegado a hora de cumprir antigas promessas e resgatar antigas promissórias. Abrace muito neste ano. Pode ser que daqui a alguns anos os abraços de que você sinta falta sejam justamente aqueles que você não deu.

Vivamos assim, o Ano Santo da Misericórdia. Reunamos todas as forças do nosso interior, desde as vísceras, dos abismos de cada um, para ir ao encontro do abismo do outro, e criar pontes. Onde houver pontes, haverá flores nascendo à beira e crianças passando e o futuro acenando como certeza boa.

É o que iremos celebrar, a partir do dia 19 de dezembro, próximo, em nossa Igreja Particular de Niterói: um ano inteiro para contemplar, viver e atuar a misericórdia do Senhor. Você está convocado a participar da Abertura do Ano da Misericórdia, em nossa Catedral de São João Batista, dia 19 de dezembro, sábado, a partir de 14 horas. Rezaremos o terço da misericórdia, às 15 horas, e a Celebração Eucarística será às 16 horas. Espero você neste momento de comunhão de nossa Arquidiocese de Niterói.

Neste ano da graça, o Pai das Misericórdias nos abrace em seu Filho e no Espírito, para que sejamos um só. E a Rainha, Mãe da Misericórdia, venha ao nosso auxílio, nos ampare, sopre onde dói, cure as feridas e seja o Arco-da-Aliança de um novo pacto firmado com Deus: o pacto de ser como Ele é, incansável em nos procurar.

 + Dom José Francisco Rezende Dias
Arcebispo Metropolitano de Niterói



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