A missão transforma a Igreja

Publicado em 07/10/2015 | Categoria: Notícias |


terra maos

Guiado pelo Espírito Santo o missionário acolhe a presença de Cristo no irmão(a).

 

Por Dom Esmerado Barreto de Farias*

Em nome da Comissão para a Ação Missionaria e Cooperação Intereclesial da CNBB, saúdo todos os missionários e missionárias cristãos leigos e leigas, seminaristas, religiosas(os), diáconos permanentes, presbíteros e bispos presentes nas dioceses de origem com as Paróquias, áreas missionárias, COMIPAs e COMIDIs; em outras Igrejas Particulares e em outros países, bem como aqueles que vieram de outros países para o Brasil. Agradecemos a Deus pelo bom testemunho que dão do Evangelho e por estarem vivenciando o caminho do Estado Permanente de Missão.

O mês missionário, celebrado em todo o Brasil,  traz este ano o tema Missão é servir e o lema “Quem quiser ser o primeiro entre vós seja o servo de todos” (Mc 10,44). Certamente, muito contribuirá para despertar e fortalecer em nossa vida, na vida das comunidades, pastorais, movimentos e serviços,  a convicção de que, chamados por Deus para o seguimento a JC, e iluminados pela ação do Espírito Santo, viver a missão que dele recebemos. 

Tocados pela graça de Deus que sempre toma a iniciativa de nos chamar e enviar e em comunhão com a Igreja, precisamos estar abertos à força da missão. Jesus Cristo que vem ao nosso encontro nos contagia com sua presença, assim como o fez com os discípulos de Emaús! (cf. Lc 24,32-35). O encontro com Jesus Cristo nos faz cada vez mais convencidos de que a vida se torna rica e fecunda quando, pela graça do Espírito Santo, a doamos, isto é, a entregamos livre e gratuitamente na realização daquilo que Deus está nos pedindo para o bem dos outros.  A Missão nos envia a viver a proximidade, assumindo em nós o sofrimento do outro e dos outros, bem como as alegrias e esperanças. “Tocando a carne sofredora de Cristo no povo” (EG 24), sendo solidário, o missionário dá sinais de que, guiado pelo Espírito Santo, ele acolhe a presença de Cristo no irmão(a), “lava seus pés”, torna-se seu servidor(a). 

A vida de tantas pessoas que vivem e anunciam o Evangelho, em especial por seu testemunho de fé e solidariedade, é um sinal eloquente de que a Missão transforma tudo, pois vem de Deus; é graça de Deus! Pelo batismo somos marcados pela graça de Deus para sermos discípulos missionários(as) de Jesus Cristo, cooperadores de Deus na missão. Cooperando com ele, fazemos a experiência de sua presença que acompanha e dá sentido à missão, pois nossa vida está a serviço da Missão. Então, não podemos desejar, nem permitir que a missão esteja ao nosso serviço, aproveitando-nos dela pessoalmente ou para o meu grupo. “Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus (…) Esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado” (EG 2). Missão é servir, servir na gratuidade, entregando a vida por amor a Jesus Cristo e às pessoas, aos pobres, à Igreja. “Na doação, a vida se fortalece; e se enfraquece no comodismo e no isolamento. “Aqui descobrimos outra profunda lei da realidade: ‘A vida se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros’. Isto é, definitivamente, a missão» (DAp 360) (EG 10).

A força da Missão penetra a vida da pessoa, das famílias, das comunidades, de toda a Igreja e de tantas outras pessoas e grupos. “A causa missionária deve ser (…) a primeira de todas as causas». Que sucederia se tomássemos realmente a sério estas palavras? Simplesmente reconheceríamos que a ação missionária é o paradigma de toda a obra da Igreja” (cf. EG 15).

A missão não é e nem pode ser um enfeite em nós. Ela toma conta de tal forma de nosso ser que não pode ser arrancada da nossa vida (cf. EG 273). Esta convicção dá firmeza, pois nasce de uma experiência profunda de fé, nasce de dentro. A missão nos pede a entrega da vida continuamente. Isto quer dizer que, para realizar a Missão, não basta fazer coisas, mesmo quando bem feitas. Na missão, o centro não sou eu. Eu sou o servo e não o Senhor; sou o aqueduto (que também bebe da água), mas não a fonte. Por isso, a minha alegria é realizar o que o Senhor está indicando, sem buscar recompensa pelo que fiz, pelos meus merecimentos. 

Lembro o senhor Eniel. Natural de Minas Gerais, em busca de trabalho migrou para o Paraná nos anos 60, depois foi para o Mato Grosso e chegou ao sul de Rondônia nos anos 80. Em seguida, foi residir em Buritis (RO). A vila foi se formando. A assistência religiosa era por demais esporádica.  Sentindo o chamado de Deus, seu Eniel ia visitando as ruas da Vila de Buritis que se tornou cidade em 1993; bem como os lugares do interior onde moravam algumas famílias. A população aumentou rapidamente, pois muitos vinham trabalhar na extração e beneficiamento da madeira. Ele Reunia pessoas e famílias, lia o Evangelho e deixava sempre alguém responsável para rezar com o povo. Ele os visitava sempre e os animava, em especial nos fins de semana. Alguns lugares estavam a mais de 30 kms de Buritis. Tudo era estrada de chão e ele fazia o percurso em bicicleta, também no tempo da chuva (dezembro a meados de junho). Foi assim que seu Eniel ajudou a fundar mais de 30 comunidades na área urbana e rural. Aos poucos foram aparecendo os Padres e seu Eniel se sentia mais fortalecido, confirmado no trabalho missionário. Ainda hoje, com 81 anos, esse grande missionário católico continua a missão e sempre diz: “Foi uma graça de Deus. Deus me deu força para esse trabalho. Eu me sinto muito feliz como um colaborador do anúncio do Evangelho! Me dá muita alegria ver as novas comunidades que foram se formando e a sua boa organização. Na Paróquia, já são mais de 100 comunidades. As dificuldades existem, porém, maior é a graça de Deus! Agradeço a Deus por minha família que sempre me apoio. O que eu aprendi nas comunidades na diocese de Ji-Paraná fui trazendo para Buritis. Aos poucos, fui tomando consciência de que era realmente uma missão que vinha de Deus e por isso me sentia mais fortalecido, pois sabia que Ele não me deixaria sozinho. No Evangelho,  Jesus nos diz: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20). Louvado seja Deus!”

Feliz mês Missionário para todos e deixemos que a Missão transforme a nossa vida e toda a Igreja!  Um grande abraço.

*Dom Esmerado Barreto de Farias é bispo auxiliar de São Luís (MA).
Fonte: CNBB/ Dom Total


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