A Voz do Pastor – MAR 2020

Publicado em 02/03/2020 | Categoria: Notícias |


Durante meus primeiros anos de seminário, “O Meu Cristo Partido”, do padre Ramón Cue, fazia parte da meditação de todo seminarista para começar a entender a vida espiritual. “O Meu Cristo Partido” é a história de um padre – a do próprio autor – que compra uma imagem de Cristo extremamente mutilada: sem rosto, sem um braço, sem uma perna, e sem cruz. Quando ele quis restaurá-la, o próprio Cristo se opôs, radicalmente, pois é assim, segundo ele mesmo, partido e mutilado, que ele se identifica com os que sofrem.

O trecho mais conhecido da obra é esse.

“Vou mostrar-vos o meu Cristo. Não é verdade que é muito belo? Mas, claro, falta-lhe o braço direito, o esquerdo está mal seguro no ombro e a mão partida por ter sido arrancada violentamente do cravo. Também lhe falta a perna direita, cortada por meio da coxa. Conserva a esquerda, mas colada à pressa e sem cuidado. E, além do mais, está sem cara. Partiram-lhe, totalmente. Cristo sem rosto. Cristo anônimo. Cristo fantasma. É, porém, muito belo, não é? Ainda que muito triste.

– Não me restaures.

– Por que não queres que te restaure? Não compreendes, Senhor, que será para mim uma constante dor ver-te partido e mutilado, cada vez que te olhar? Não compreendes que sinto dó?

– É isso que quero: que vendo-me partido, te lembres de tantos irmãos que convivem contigo, ignorados e distantes, e que estão, como Eu, partidos, esmagados, indigentes, oprimidos, doentes, mutilados… Sem braços, porque não têm possibilidades nem meios de trabalho; sem pés, porque lhes bloquearam os caminhos e não podem dar um passo em frente na vida; sem cara, porque lhes roubaram a honra, o mérito, o prestígio. Todos os esquecem e voltam-lhes as costas… não me restaures! Talvez, vendo-me assim, te sirva de lição para entender a dor dos demais”.

O Cristo Partido é a imagem perfeita do ser humano, da sociedade e da Igreja, dilacerados por interesses que já nem convém enumerar. Cada um sabe bem a dor do dilaceramento a que foi exposto, nas comunidades, famílias, trabalho, amores, enfim, na realidade da vida que sempre insiste em ser cruel, porque, muitas vezes, não sabe ser de outra forma.

Na comunidade cristã, esse dilaceramento acontece, invariavelmente, dentro de grupos movidos por interesses que lhes são próprios, pessoais, singulares, demasiadamente, individuais. “A minha paróquia”, “o meu padre”, “o meu santo de devoção”, “o meu Jesus”, o meu… o meu… o meu…

Algum dia, isso tudo será “nosso”?

Essas patologias espirituais já aconteciam nas comunidades cristãs primitivas.  

“Meus irmãos, fui informado por alguns da casa de Cloé, de que há divisões entre vocês. Com isso quero dizer que alguns de vocês afirmam: “Eu sou de Paulo”; ou “Eu sou de Apolo”; ou “Eu sou de Cefas”; ou ainda “Eu sou de Cristo”. (1ª Coríntios 1,11-12).

(Eu sou de Paulo, eu de Pedro… E você, de quem você é?)

Quanto mais descobrimos sobre Paulo e os coríntios, mais entendemos a relevância da mensagem para os nossos dias. Corinto era a principal cidade grega, a porta de passagem entre o Ocidente e o Oriente. Importante cidade comercial, nela havia tudo do melhor e do pior de uma cidade vibrante e movimentada. Seus cidadãos cultivavam espiritualidade, ascetismo e aperfeiçoamento estético. Mas esse crescimento não havia promovido o desenvolvimento ético. Um sincretismo religioso de práticas judaicas, romanas e gregas tendiam a reduzir qualquer valor a um resíduo de misturas forjadas. Quando tudo pode, nada vale muita coisa, não é?

Paulo foi a Corinto na segunda viagem, por volta de 51 DC, e ficou por lá 1 ano e meio, mais tempo do que em outros lugares (At 18,11). A eloquência de Apolo, que havia pregado em Corinto, contrastava com o jeito de Paulo pregar: Paulo não era bom de fala. Moisés também não era! E Corinto era boa no pendor de dividir-se internamente.

Penso muito em como é impressionante a vocação das comunidades cristãs para se dividirem! Nem falo das quebras externas, que geraram a quantidade de igrejas-irmãs separadas, às vezes, mais separadas do que irmãs, mas das quebras internas, entre grupos e pastorais.

Isso jamais deveria acontecer! Esse é o nosso ponto fraco, o nosso escândalo em não testemunhar a unidade de Cristo. É assim, aliás, que evidenciamos um sintoma de infantilidade pessoal e comunitária.

“Dei a vocês leite, e não alimento sólido, pois vocês ainda não estavam em condições de recebê-lo, e nem agora estão, porque ainda são guiados pelo instinto. Porque, se há inveja e discórdia entre vocês, não estariam vocês sendo carnais e agindo como mundanos?”  (1ª Coríntios 3,2-3).

A pergunta é forte, e Paulo pega pesado, por duas razões: primeiro, porque não era do costume dele pegar leve – quem não quisesse tinha toda liberdade de ir embora. Segundo, porque à medida que o tempo passava, a ideia de Cristo edificar a sua Igreja ficava cada vez mais longe, e não por causa das grandes perseguições, mas por conta das pequenas manias de cada um. O que divide uma igreja não são as doutrinas, mas as personalidades, as pequenas invejas, as pequenas bobagens.

 “Visto que há inveja e discórdia entre vocês…”

A palavra “inveja” significa ver ao inverso. O invejoso não quer o que o outro tem, mas quer que ele não tenha; se possível, quer destruir o que ele tem. Trata-se um “egoísmo máximo”, um desejo violento em promover suas próprias ideias, excluindo qualquer possibilidade de aceitar o que seja do outro.

A palavra “divisão” lembra um tecido rasgado, deixado em fiapos. A túnica inconsútil de Cristo (João 19,23) – imagem perene da unidade da Igreja – que sequer os soldados rasgaram, termina em pedaços. E essa é uma das nossas mais tristes realidades.

Esta era a situação da Igreja em Corinto, uma igreja dividida e rasgada em partidos. Normalmente, esse desastre começa, ou com pessoas que se acham “altamente espirituais”, ou com pessoas que são “altamente ofendidas”.

Essas últimas, as pessoas ofendidas, têm uma imensa capacidade de encontrar outras pessoas ofendidas. Daí, quando elas se juntam, e decidem que vão promover seus próprios pensamentos e convicções, acabam excluindo qualquer outro do seu caminho. Isso não pode terminar em coisa boa e, geralmente, desenvolve a “discórdia”. Cada grupo se transforma num partido político com sua própria plataforma e sua própria agenda.

Irmãos, irmãs, a Quaresma é a porta da Páscoa.

Se todas as nossas pontas forem limadas, não machucaremos mais ninguém, e nos apresentaremos a Cristo do jeito como ele nos sonhou: gente que ama e que perdoa, sete vezes, setenta vezes sete vezes, ao infinito do amor e do perdão.

Conseguiremos?

Nós, não! Cristo em nós, sim. Ele irá unir os nossos cacos para que não estejamos mais partidos, mas inteiros, como ele nos quer.

Desejo a todos uma Santa Quaresma: a Quaresma da união. Que, por nossa causa, jamais, o Cristo se parta.

+ Dom José Francisco Rezende Dias
Arcebispo Metropolitano de Niterói

Fonte: Arquidiocese de Niterói



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