A VOZ DO PASTOR – FEV2018

Publicado em 04/02/2018 | Categoria: A Voz do Pastor Notícias |


Vós sois todos irmãos

Irmãos e irmãos, filhos e filhas de Deus:

Em 1974, a Campanha da Fraternidade perguntava “Onde está o teu irmão?” Era a mesma pergunta de Deus a Caim depois do assassinato de Abel. Naquela época a Igreja no Brasil denunciava o pecado social e buscava a promoção da justiça.

De lá para cá, não muito foi mudado. A realidade brasileira tem, cada vez mais, revelado sua face de despreparo, sobretudo, diante da resistente bactéria da corrupção e da violência.

O tema da Campanha da Fraternidade de 2018 é a busca da superação da violência. O lema “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8) já não apresenta a indignação do livro do Gênesis diante da violência contra Abel, como em 1974, mas um convite à renovação da vida diante do anúncio pascal do Evangelho. Sim, “Vós sois todos irmãos”. Esta certeza deveria bastar para demover ódios e desesperanças.

É preciso ver, discernir e agir. Qual é a realidade?

Nas residências trancadas por cercas elétricas e vigias, as pessoas se isolam com medo. O irmão é afastado, o vizinho é afastado. Nos anos de 1980, a palavra “solidariedade” era o nome de um partido polonês, que insistia ser a revolução possível pela lei do amor. Hoje, a mesma palavra repousa esquecida num canto qualquer, lá mesmo onde pessoas se enclausuram no ensimesmamento dos aparelhos digitais.

A violência ameaça e assusta.

Com 3% da população mundial, o Brasil responde por 13% dos assassinatos do planeta. Este percentual expressivo revela a contradição da imagem do brasileiro como povo pacato e ordeiro. O paradoxo é que, justamente, nos mesmos locais em que as pessoas podem pagar por segurança, também podem contar com o aparato de segurança estatal. Nas periferias, os moradores são entregues a grupos armados. A segurança é privilégio de poucos; a violência, realidade de muitos.

O acesso à Justiça também só acontece para aqueles que podem usufruir de bons serviços. Mais da metade da população carcerária, depois de anos presa, ainda não compareceu diante de um magistrado.

E o que dizer da política? Parlamentares identificados com segmentos econômicos discutem propostas geradoras de violência, como o armamento da população civil. A corrupção política é a expressão máxima da violência, é quando não há dúvida de que o dinheiro realmente se sobrepõe à dignidade humana.

Quem são as vítimas dessa situação?

O mapa da violência de 2016 mostrou que morrem muito mais jovens negros do que brancos, mais mulheres do que homens sofrem violência. Numa lista de 83 países, o Brasil ocupa a quinta posição entre as nações que mais assassinam mulheres; grande parte destes assassinatos acontece dentro de casa.

Contra a criança, a miséria é uma grande violência. Toda criança necessita de recursos educacionais, alimento, ambiente saudável e carinho. Há casas sem esse respaldo, e é nessa camada da população que traficantes de pessoas encontram as vítimas da exploração sexual e do comércio de órgãos. Não há violência maior do que fazer do ser humano uma mercadoria.

O trânsito é outra arena de violência. Todo ano, no Brasil, algo em torno de 50.000 pessoas morrem vitimadas pelo trânsito. Muitas destas mortes poderiam ser evitadas obedecendo a regras básicas de respeito e civilidade. Nem isso acontece!

E há também a violência religiosa, promovida pelo fanatismo e pela intolerância. As religiões de matiz africano são as que mais sofrem perseguições e intolerância.

Quanta coisa por fazer! Às vezes tenho a impressão de que o país precisa ser reinventado.

Mas o que diz a Bíblia?

O rompimento nas origens – da relação do homem com Deus – foi um ato violento. Daí nada mais se poderia esperar a não ser a multiplicação da violência, e ela mostra sua cara, logo a seguir, no assassinato de Abel. Tudo o que havia sido criado por Deus, e por ele considerado bom, ficou para sempre manchado pela nódoa do pecado. “Acaso sou o guarda do meu irmão?” (Gn 4,9).

Se a violência brota da quebra da amizade com Deus, ela só poderá ser superada pela inversão da réplica de Caim: sim, somos todos responsáveis pelos irmãos, responsáveis na construção do projeto das origens que se postergou para o futuro. O futuro está em nossas mãos.

O futuro é Jesus Cristo.

“Ouvistes o que foi dito: olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não ofereçais resistência ao malvado. Pelo contrário, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda.

“Ouvistes o que foi dito: amarás a teu próximo e odiarás a teu inimigo. Eu vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Assim vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus; pois Ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e cair a chuva sobre injustos e justos. Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os publicanos não fazem a mesma coisa? E se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? Sede, portanto, perfeitos como o vosso Pai Celeste é perfeito” (Mt 5,38-48).

Lucas chama a essa perfeição de misericórdia (Lc 6,35).

Não à toa os que promovem a paz serão chamados de filhos de Deus (Mt 5,9). A promoção da paz é o ministério do seguidor de Jesus. “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Não é à maneira do mundo que eu a dou” (Jo 14,27).

Essa é a luz! Pois que ela brilhe diante de todos, para que vejam as boas obras e glorifiquem o Pai que está nos céus (Mt 5,16).

Pai Nosso que estais nos céus!

“Acaso não temos nós o mesmo Pai? Não foi o mesmo Deus quem nos criou? Por que, então, nos enganamos uns aos outros?” (Ml 2,10.16b)

Quando o Beato Papa Paulo VI instituiu, em 1968, a comemoração do dia mundial pela paz, no primeiro dia do ano, ele falou da necessidade de um espírito novo, um novo modo de pensar o homem e seus deveres e o seu destino, que se constrói com uma nova pedagogia: a educação das novas gerações para o respeito mútuo, para a fraternidade e para a colaboração entre as pessoas. “Do Evangelho pode brotar a paz, não para tornar os homens fracos e moles, mas para substituir nas suas almas os impulsos da violência e da prepotência pelas virtudes viris da razão e do coração dum humanismo verdadeiro!”

No dia mundial da paz de 2017, vieram do Papa Francisco as palavras simples e profundas que o caracterizam: “Todos nós desejamos a paz; muitas pessoas a constroem todos os dias com pequenos gestos; muitos sofrem e suportam pacientemente a dificuldade de tantas tentativas para construí-la”.

É de pequenos gestos que se fazem as grandes obras. Uma partitura musical de Bach é rica em semínimas e semicolcheias. A lógica do amor é a lógica das pequenas atenções, mesmo diante das ações violentas.

Em 2007 foi beatificado, como mártir, o austríaco Franz Jagerstatter, casado e pai de família. Ele se negou a colaborar e apoiar o regime nazista; foi condenado à morte e decapitado em 1943.

É preciso resistir a toda forma de violência e consagrar todos os esforços possíveis pela causa da paz. Nosso agir precisa superar toda violência e testemunhar que somos irmãos.

Fiel a Jesus Cristo, a Igreja está, intimamente, ligada às pessoas, a sua história e aos acontecimentos. Ela quer que todos os discípulos vivam o mandamento do amor, na oração comum, no ecumenismo e no diálogo inter-religioso, nos conflitos e rivalidades, na violência doméstica.

A compaixão é o caminho.

Noáh significa compaixão. Noé é Noáh, a compaixão. Quando as águas tempestuosas subirem e a barca humana ameaçar naufragar, o único sentimento capaz de nos conduzir à margem segura será a compaixão. A compaixão, Noáh, será o Noé da espécie humana.

Que assim seja, irmãos e irmãos.

Preparemo-nos para uma santa Quaresma. A Cruz sempre estará fincada no horizonte humano. Mas, perto da Cruz sempre haverá um jardim, “e no jardim um túmulo novo onde ninguém fora depositado. Então, por causa da pressa e pela proximidade do túmulo novo, aí colocaram Jesus” (Jo 19, 41-42).

Perto da nossa Cruz, junto ao nosso jardim, nós O esperaremos ressuscitar.

Amém.

+ Dom José Francisco Rezende Dias

Arcebispo Metropolitano de Niterói

Fonte: Arquidiocese de Niterói



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